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Nada mais instigador do que Ler Para Ficar Sabendo, que este blog é uma iniciativa proposta pelo programa de Formação de Professores, intitulado Práticas de Leitura e Escrita, na Contemporaneidade. O Curso - Leitura e Escrita em Contexto Digital - oferecido pela Secretaria Estadual da Educação do Estado de São Paulo, pretende ampliar a formação de professores, firmando-os nas práticas de leitura e escrita, em contextos digitais interativos. Com o desenvolvimento desta atividade, ganhamos todos – professores, alunos e seguidores - mais um espaço de leituras, releituras e vivências, que se ramificarão em nossas práticas de cidadania. Convidamos a todos, a uma boa "lida" nesta estrada escrita.

Encontros e Despedidas - Milton Nascimento

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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Nasce Um Escritor



"Quem lê tem menos dificuldade para ver o mundo."
(Autor desconhecido)





Nasce um escritor


             O primeiro dever passado pelo professor de português foi uma descrição tendo o mar como tema. A classe inspirou, toda ela, nos encapelados mares de Camões, aqueles nunca dantes navegados, o episódio do Adamastor foi reescrito pela meninada. Prisioneiro no internato, eu vivia na saudade das praias do Pontal onde conhecera a liberdade e o sonho. O mar de ilhéus foi o tema de minha descrição.


            Padre Cabral levara os deveres para corrigir em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela sala de aula. Pediu que escutassem com atenção o dever que ia ler. Tinha certeza, afirmou que o autor daquela página seria no futuro um escrito conhecido. Não regateou elogios. Eu acabara de completar onze anos.   


            Passei a ser uma personalidade, segundo os cânones do colégio, ao lado dos futebolistas, dos campeões de matemática e de religião, dos que obtinham medalhas. Fui admitido numa espécie de Círculo Literário onde brilhavam alunos mais velhos. Nem assim deixei de me sentir prisioneiro, sensação permanente durante os dois anos em que estudei no colégio dos jesuítas.



            Houve, porém, sensível mudança na limitada vida do aluno interno: o padre Cabral tomou-me sob sua proteção e colocou em minhas mãos livros de sua estante. Primeiro “As Viagens de Gulliver”, depois clássicos portugueses, traduções de ficcionistas ingleses e franceses. Data dessa época minha paixão por Charles Dickens. Demoraria ainda a conhecer Mark Twain, o norte-americano não figurava entre os prediletos do padre Cabral.
            Recordo com carinho a figura do jesuíta português erudito e amável. Menos por me haver anunciado escritos, sobretudo por me haver dado o amor aos livros, por me haver revelado o mundo da criação literária. Ajudou-me a suportar aqueles dois anos de internato, a fazer mais leve a minha prisão, minha primeira prisão.

                        Amado, Jorge. O menino Grapiúna. Rio de Janeiro, Record, 1987. P. 117-20

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